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Discurso do presidente nas jornadas de cultura e património em Almoster

Setembro 27, 2008

Discurso de Diogo Canavarro nas primeiras Jornadas de Cultura e Património de Santa Maria de Almoster.

Caros companheiros e amigos,

Permitam-me em primeiro lugar que saúde os organizadores deste evento pela sua extraordinária iniciativa. Numa sociedade onde impera o pensamento único, os “reality shows” e tudo o que há mais de comum, ter a ousadia de engendrar convívios tão saudáveis e altruístas como este, em promoção e divulgação da nossa cultura e identidade, corresponde a um verdadeiro acto de compromisso para com as nossas comunidade enraizadas e somente ao alcance de homens e mulheres livres, mas sempre conscientes da sua herança e futuro. Lanço ainda o desafio para que todos façamos um esforço colectivo para a organização de um ciclo de conferências/palestras, onde possam igualmente ser incluídos outros temas tão interessantes e fascinantes como o são a filosofia, a poesia, as ciências, etc., pois que com um leque tão vasto de pessoas que temos ao nosso dispor, certamente será possível – e mais do que possível, necessário!

Permitam-me, igualmente, que faça uma breve apresentação da associação da qual sou presidente. A Causa Identitária é uma jovem organização político-cultural, devidamente registada e legalizada, tendo por objectivo a defesa e promoção da nossa identidade regional, nacional e europeia. Na prática tal significa que para nós a afirmação consciente e vincada da nossa mais remota identidade – expressa numa dinâmica muito especial entre os factores étnicos, culturais, linguísticos, históricos e costumeiros – no sentido da preservação da diversidade entre homens, povos e civilizações, é a força motriz que move as nossas sociedades. Nesse sentido, os identitários não se revêem, ainda que respeitem, os modelos histórico-políticos do passado; A nossa política é a nossa identidade!

A nossa acção é baseada num complemento entre o trabalho cultural e político. Para o primeiro temos a edição de cadernos, revistas, textos doutrinais, brochuras e manutenção de uma rede de comunicação social (Novopress) e para o segundo várias campanhas enquadradas numa lógica de enraizamento local, despertando o sentimento identitário, nas suas múltiplas facetas, nos vários agentes que contribuem para o desenvolvimento das nossas comunidades. Em resumo, a nossa estratégia enquadra-se numa visão patriótica da vida – saudável e livre das grilhetas do passado – visão essa que consideramos possuir três níveis: o carnal (Região), o histórico (Nação) e o civilizacional (Europa), e é nessa perspectiva que, tomando o meu caso particular, me revejo plenamente enquanto Ribatejano, Português e Europeu.

Feitas estas necessárias introduções, passemos ao tema que me foi proposto.

A Cultura é parte integrante da identidade de qualquer povo e uma das suas características mais relevantes. Penso que esta premissa é lógica e ajusta-se bem ao bom-senso geral. Contundo, creio que, em virtude de um mundo cada vez mais uniforme e “glo(bana)lizado”, essa mesma cultura é sistematicamente relacionada com uma visão redutora e negadora de uma, também ela lógica, diversidade do mundo. Os conceitos de «direito à diferença» e de «cooperação entre povos», foram assim submersos pelo conceito de «aldeia global», arrasando com todas as barreiras e fronteiras, onde tudo se compra e vende – inclusive a própria dignidade. É neste cenário fértil de encruzilhadas que urge um retomar à verdadeira essência da nossa cultura, fundada numa matriz milenar comum e num espírito de solidariedade e justiça comunitária (relembremos o conceito de «comunidade orgânica», muito própria do romantismo alemão).

Quando pretendemos conhecer um livro devemo-lo ler do princípio ao fim, e não apenas seleccionando alguns dos seus capítulos. O mesmo se passa com a nossa Cultura.

Assim, podemos dizer que nós, os Portugueses, somos um povo latino, ibérico e europeu, isto recorrendo a princípios antropológicos, etnográficos e históricos. Sobre a componente europeia, é preciso destacar que a mesma traz uma memória longínqua mas poderosíssima: os indo-europeus. Este termo, essencialmente linguístico, é um factor marcante na identidade, cultura e história Portuguesa. A existência de um povo primitivo com uma língua própria que teve a sua dispersão por toda a Europa, e não só, explica o parentesco entre os povos europeus, nomeadamente nas suas línguas – usando métodos comparativos verifica-se que todas, à excepção do basco, lapão, finlandês e húngaro, partilham uma sintaxe comum. Esta herança, rica e sublime, cai infelizmente muitas vezes no esquecimento, em virtude de uma certa confusão, muito típica no nosso país, entre o que são as nossas raízes imemoriais e a geopolítica portuguesa nos diversos palcos da nossa história. O nosso património histórico-cultural é um legado, uma continuidade, um elo visível e invisível que nos aproxima de uns e nos separa de outros. Não pode, nem poderá ser jamais, criado artificialmente por conveniências pessoais e políticas!

E será este legado crucial ou apenas algo próprio de quem vive agarrado ao passado?

A minha resposta é por demais óbvia; Num mundo onde os nossos povos, «filhos do meio» sem qualquer projecto de vida duradoiro, são reduzidos a meros números de consumo, a certeza de um passado longínquo inspira o futuro mais poderoso. «Para aqueles que não têm nada, a Pátria é tudo!», dizia o francês Jean Jaurès.

E é por isso que é tão importante dar continuidade ao combate cultural, criando condições e oportunidades para que as nossas comunidades possam descobrir quem são, de onde vieram, e para onde vão. Sem tabus nem complexos. É imperioso devolver o debate das ideias aos grandes palcos, libertarmo-nos da pequenez do dia-a-dia e voltarmos a ser um povo portador de vida longa – o que implica sermos activos junto da nossa localidade na preservação e divulgação de tudo o que diz respeito à nossa Cultura, repudiando todos os tipos de ódios ao «outro» mas defendendo abertamente o legítimo direito de amor incondicional aos «nossos», os que partilham a mesma memória colectiva que nós. Sigamos os ensinamentos de Martin Heidegger, figura cimeira da filosofia no século XX e uns dos grandes impulsionadores na definição do «Eu».

Este, na sua obra “Sein und Zeit”, foi o primeiro a distinguir entre o Ser, Sein, e um «Ser» diferente, um ser que não seria abstracto como o «Ser», mas algo diferente. Ao «Ser» enraizado, envolto numa ancestralidade e apego a algo, como a terra local, memória ancestral, Heidegger chamou-lhe Dasein (Da-Sein) Ser-ali, ou seja, eu só sou ali. Sou aqui e não noutro lado qualquer.

Mas não é somente para a compreensão de quem somos que o legado cultural é importante. Este pode funcionar e contribuir para a estruturação de uma nova solidariedade entre nós, algo que, infelizmente, falta, e muito, a Portugal. Sem querer ferir susceptibilidades e compreendendo as dificuldades e angústias de muitos povos, não posso deixar de ficar perplexo com a dualidade de critérios no que toca à ajuda social. Sempre que se tratam de desprotegidos, muitas das vezes do outro lado do mundo, abrem-me inúmeras contas bancárias, criam-se sistemas de mensagens escritas, etc., mas quando vemos os nossos trabalhadores postos na rua, muitas das vezes sem justa causa, limitamo-nos a dizer «pobres coitados» e esperando que o Estado «os ajude». Falta-nos, pois, um forte sentimento identitário entre as nossas comunidades, este “esquecimento” do sentido de pertença torna-nos inumanos para connosco próprios – e não se pode respeitar o «outro» quando não existe respeito por si próprio.

Por fim, e de forma a sintetizar o pensamento identitário, gostaria de deixar uma citação que considero brilhante e sempre actual. Perguntava Alain de Benoist: «Qual é, hoje, a principal ameaça? A da progressiva desaparição da diversidade do mundo. O nivelamento das pessoas, a redução de todas as culturas a uma «civilização mundial» construída sobre tudo o que há de mais comum. Já hoje, de uma ponta à outra do planeta, se vê erguerem-se o mesmo tipo de construções, instaurarem-se os mesmos hábitos mentais. De Holiday Inn a Howard Johnson, começam a desenhar-se os contornos de um mundo uniformemente cinzento. Viajei muito – por muitos continentes. A alegria que experimentamos no decurso de uma viagem, é a de ver modos de vida ainda enraizados, ver viver, com o ritmo que lhes é próprio, povos diferentes, de uma outra cor de pele, de uma outra cultura, de uma outra mentalidade – e que se orgulham da sua diferença. Creio que é esta diversidade que faz a riqueza do mundo, e que o igualitarismo está em vias de a matar. É por isso que importa não apenas «respeitar os outros» – apenas com a boca –, mas de, em todo o lado, suscitar o mais legítimo dos anseios que possa haver: o de afirmar uma personalidade diferente de qualquer outra, de defender uma herança, de se governar a si próprio segundo aquilo que realmente se é. E isso implica lutar, frontalmente, contra um pseudo-antirracismo negador das diferenças, e contra um racismo ameaçador que é, ele também, a recusa do Outro – a recusa da diversidade.»

Este é o nosso espírito; Pelo amor à nossa cultura, pela tradição, pelo futurismo, pela liberdade e pela identidade!

Viva Almoster!
Viva o Ribatejo!
Viva Portugal!
Viva a Europa!

3 comments

  1. Parabens, pelo discurso,esforço e dedicação, CI cada vez está melhor!


  2. Excelente discurso!!! É precisamente este tipo de apresentação, acutilante mas moderada, precisa na mensagem e nos objectivos, que deve ser adoptada e acima de tudo sentida e interiorizada por quem luta pela nossa cultura e pelo nosso modo de ser.
    Este é o discurso identitário do qual me posso orgulhar! Parabéns!


  3. De facto está de parabéns o nosso presidente.



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