
Por Diogo Canavarro
No último programa do Câmara Clara (RTP2), discutiu-se a importância dos nossos autores e a expansão da língua portuguesa além-fronteiras. Um dos convidados, o Dr. Paulo Teixeira Pinto, afirmou que «todo o artista tem o mundo dentro de si, pelo que o país de onde é originário pouca relevância tem na obra», problematizando-se em seguida o direito que um país tem em se legitimar «dono» de um certo autor ou escrito.
Que as nossas (supostas) elites sejam dotadas de um pensamento visceralmente oposto ao pensamento identitário, não é novidade. Mas quando este ultrapassa a barreira do bom-senso e das ciências naturais, uma observação, ainda que singela, é necessária.
Todo o indivíduo nasce – necessariamente – no seio de uma comunidade, seja ela de que carácter for. E toda a comunidade transporta consigo uma herança cultural e hábitos enraizados, ainda que estes nos pareçam, por comparação aos nossos, absolutamente primitivos, pelo que a tendência desse mesmo indivíduo é captar as linguagens e códigos próprios desse seio como forma de se entrosar e crescer. Até nos comportamentos mais instintivos – a maneira de dormir, cuspir, apontar, ter relações sexuais, etc. – esta situação se verifica: É sabido da Etologia, ciência que estuda a semelhança entre os comportamentos animais e humanos numa determinada região, sobretudo pelos contributos de Konrad Lorenz, que todos esses comportamentos não são aleatórios. De facto, estes acarretam consigo toda uma escola e linhagem transformada ao longo de séculos – que se mantêm viva na sua essência desde que a base etnocultural original não seja deturpada. Todo o indivíduo está, assim, pré-formado à partida, pelo que dizer que é «irrelevante» o lugar onde qualquer indivíduo nasce e cresce é uma absoluta idiotice.
Por outro lado, a ideia de que cada artista «tem o mundo dentro de si» também deve ser analisada. Com efeito, todos nós somos influenciados, sobretudo nesta era global, por diversas culturas, mitos e códigos. Contundo, e pensando sobretudo nos conscientes da sua identidade, essa informação é um complemento ao que se é de partida – a comunidade originária – nunca podendo vir a substituir o pilar base da identidade. Aliás, é exactamente esse mesmo “veio central” caracterizador que nos permite aproximar de certas culturas e a nos afastarmos de outras. É mais espectável que um Europeu se identifique com as marchas lisboetas do que com os ritos de uma tribo da Amazónia, ainda que possa sentir empatia e solidariedade por esta última. Identidade, é essa a explicação.
Em último lugar temos a questão de um país ser «dono» de um autor/escrito. Obviamente há que respeitar – sempre! – a individualidade, o seu génio e criatividade. Mas, sinceramente, o que seria um verdadeiro crime de lesa-pátria era deixar no esquecimento o nosso legado, a nossa cultura, a nossa identidade. Não permitir que os nossos compatriotas possam conhecer-se e rever-se, através da memória longínqua mas não apagada, em todos aqueles que de uma maneira ou de outra nos fazem sentir orgulho em sermos Portugueses!
Viva a Cultura Portuguesa!



