Arquivo de Janeiro, 2009

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A intervenção cívica como exercício identitário

Janeiro 11, 2009

Por João Martins

É comum ouvirmos diariamente os nossos concidadãos tecerem duras criticas ao estado actual do regime partidocrático e consequente degradação das instituições democráticas, as quais cada vez mais representam autênticos ninhos onde grassam o caciquismo, os jogos de influência, o lucro em proveito próprio, o amiguismo, a promiscuidade entre o aparelho político e empresarial, entre outras actividades nas quais reina a absoluta ausência de valores morais.

Não se chegou a este estado lastimável por acaso, não é algo conjuntural, é isso sim, é preciso dizê-lo, algo que tem origem na própria estrutura ideológica do regime, ou seja, é consequência de uma política que subjuga o poder político ao poder económico, confundido o segundo com o primeiro através da influência tentacular que esse apresenta por via do domínio do aparelho mediático, permitindo assim desviar ou chamar as atenções para aquilo que bem se entende e, por conseguinte, condicionar o livre pensamento, a liberdade de expressão e de acção de todos aqueles que se manifestam em oposição a este estado de coisas.

Por outra parte, e aqui também é imperioso denunciá-lo, a oposição pouco tem feito para se afigurar como uma alternativa séria. Atente-se que não me refiro à chamada oposição, a oposição oficial às políticas governamentais, na verdade uma caricatura no sentido em que é esta mesma oposição um sustentáculo do regime, dada a cumplicidade e conivência desavergonhada. A oposição, aquela que está fora das malhas do sistema, essa demonstra total incapacidade para estruturar uma real alternativa de ideias, de valores e mesmo na postura, em suma, demonstra ser incapaz para erigir uma verdadeira contracultura. E não o consegue fazer porque se insiste em fazer mais do mesmo, sem se perceber que não se pode aguardar nada de diferente quando se faz exactamente o mesmo. A cultura política é quase inexistente nas hostes antagónicas ao regime e esse facto leva a que persista a dificuldade em perceber que o campo da acção política não se resume, nem pode resumir à actividade partidária e muito menos ao todo-eleitoral. O cerne da questão passa invariavelmente pelo assumir de uma nova forma de fazer política, uma abordagem inovadora e descomplexada, liberta da dependência dos partidos e que não nos deixe condicionar pelos mesmos, ou seja, uma dinâmica política, social e cultural que nos coloque em directo contacto com o povo. Essa via dá pelo nome de intervenção cívica.
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